Conheça o Chefe Perceval: 99 anos e espírito escoteiro latente

Poucos nomes são lembrados com tanto carinho e reverência no escotismo paulista quanto o de Perceval Leite Brito. Aos 99 anos, sua trajetória se confunde com a história do próprio movimento. Fundador de grupos, referência espiritual e educador de essência, Perceval marcou gerações com seu exemplo de firmeza, fé e cuidado com cada jovem que passou por seu caminho.

Foi ele quem esteve à frente da fundação do Grupo Escoteiro Lorena, junto a outras duas famílias — os Pernambuco e os Levy. O grupo surgiu dentro de casa, com cerca de 14 jovens muito próximos, e cresceu com uma energia que refletia o próprio Chefe Perci: empolgado, organizado, incansável. Giulio Rolfo, um dos muitos escoteiros formados por ele, relembra o envolvimento constante da família Leite Brito em todas as etapas do grupo.

Lúcia Pernambuco, que cresceu nesse ambiente, lembra com carinho das reuniões, das brincadeiras e da convivência entre as famílias. Para ela, Perceval era aquele adulto que mantinha a ordem sem apagar a leveza das relações. “Ele sempre colocava ordem na bagunça com um sorriso no rosto”, disse. Dona Inês, sua esposa, também era uma presença constante: calma, gentil, firme — um pilar afetivo para todos ao redor.

João Paulo, que também fez parte do início do Lorena, descreve Perceval como uma das pessoas mais importantes que já conheceu. Ele recorda que o chefe era brincalhão, mas sabia exatamente quando precisava cobrar atitude. “Era amoroso, mas muito rigoroso nos quesitos de caráter e responsabilidade”, explicou.

A presença de Perceval também se estendia para além dos encontros escoteiros. José Guerra, que passou pelo grupo ainda jovem, contou que certa vez Perceval saiu da Jucesp — onde era secretário-geral — para acompanhá-lo pessoalmente em uma avaliação de especialidade. “Era dia útil, ele estava trabalhando, mas me levou até um filatelista profissional para que eu pudesse ser avaliado. Isso porque eu queria conquistar uma especialidade em selos. Esse era o nível de cuidado que ele tinha com a gente”, afirmou. Anos depois, já adulto, José reencontrou o chefe em um evento com autoridades estaduais. Ele lembra que, mesmo com funções oficiais, Perceval insistiu em almoçar ao seu lado, dizendo com seu jeito firme e afetuoso: “Ora, Pepito, não me amole… Eu sento e almoço com quem eu quiser.”

Rogério Lacaz Ruiz também guarda uma memória marcante. Aos nove anos, após sobreviver a uma grave queimadura, foi surpreendido com uma homenagem preparada por Perceval: recebeu uma medalha, um diploma e um barrete, reconhecendo a coragem com que enfrentou as consequências do acidente. Na época, ainda não entendia o peso daquele momento. Só mais tarde compreendeu o tamanho do gesto: uma prova de cuidado e reconhecimento genuíno.

Com o fim das atividades do Lorena, Perceval não parou. Anos depois, ele foi um dos responsáveis pela criação do Grupo Escoteiro Bacury, em Alphaville. A iniciativa surgiu a partir de uma reunião do PROJOVEM, apoiada pela Sadia, onde ele atuava como diretor jurídico. Giulio relembra esse reencontro com humor: “Faziam dez anos que a gente não se via. Quando entrei na reunião, ele olhou e falou: ‘Escoteiros de 11 a 15 anos? É o Giulio que vai chefiar.’ Foi assim, direto.”

As sedes do Bacury mudaram muitas vezes — de casas emprestadas a clubes, passando por um antigo quartel e até um terreno abandonado. Mas, mesmo com tantos obstáculos, Perceval mantinha o grupo unido. “Ele estava sempre motivando e comemorando cada pequena conquista. Quando conseguimos o terreno atual, que era um antigo aterro, ele foi o primeiro a comemorar”, lembrou Giulio.

Sua influência formou dezenas de chefes que seguem ativos até hoje: Mário Dalla, Heloísa Amarante, Ana, Astor, Keka, Paulo, Domenico Testa, Alcides — e tantos outros. “Quem conheceu o Chefe Perceval se influenciou. Ele deixava marcas em todo mundo”, disse Giulio.

Fernando Rolim lembra da energia vibrante do chefe, mesmo já mais velho. “Ele adorava jogar futebol. Eu acampei com ele umas duas vezes e ele sempre trazia aquele equilíbrio entre seriedade e alegria.” Já Miguel Angel Peres revive, entre risos, a história de um acampamento em que um bode bloqueava a trilha da patrulha. A situação foi resolvida quando Perceval chegou com sua Kombi cinza e todos entraram para seguir viagem. “Era esse tipo de coisa que tornava tudo especial.”

Mesmo quem passou pouco tempo com ele leva lembranças eternas. Rogério reconhece que ficou apenas um período curto no grupo, mas diz que o exemplo de Perceval ficou para a vida inteira. “Nunca o vi triste, desanimado ou reclamando de algo ou alguém. Sua dedicação chamava a atenção.”

A motivação de Perceval sempre esteve ligada a algo maior. Para ele, enquanto houvesse jovens no escotismo, respeitando a Pátria e obedecendo a Deus, haveria esperança para a humanidade. Essa convicção dava força aos seus gestos — dos mais simples até os mais complexos.

Hoje, prestes a completar um século de vida, Perceval segue sendo essa figura rara: um educador que soube formar pessoas com empatia, coragem e valores. Seu legado ultrapassa barracas, lenços e promessas. Está nas vidas que ele tocou — e que, por causa dele, nunca mais foram as mesmas.

 

Matéria por: Sofia Pontieri de Oliveira

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