Dom Evaristo Arns foi Assessor Religioso Católico dos Escoteiros do Brasil

16 de dezembro de 2016

Os Escoteiros do Brasil – Região de São Paulo lamentam a morte de Dom Paulo Evaristo Arns, na quarta-feira, 14 de dezembro, aos 95 anos. O cardeal era um dos ícones da luta contra a ditadura militar.

O líder católico progressista colaborou com o movimento escoteiro na década de 1970, após ser nomeado arcebispo de São Paulo, quando tinha 49 anos. Dom Paulo Evaristo Arns foi Assessor Religioso Católico dos Escoteiros do Brasil, na época seu cargo era denominado Membro do Conselho Nacional da UEB (União dos Escoteiros do Brasil), conforme o livro “Roteiro Pastoral” publicado em novembro de 1970.

A publicação de mais de 300 páginas era direcionada aos escotistas denominados como “chefes, aquelás e assistente religioso”. Possui orientações pastorais, comentários de jogos e explicação para as provas de especialidades religiosas. Era um período que cada ramo possuía seu distintivo específico.

Dom Paulo Evaristo Arns era irmão de Zilda Arns, que morreu no Haiti em 12 de janeiro de 2010, em decorrência do forte tremor que destruiu o país. Zilda foi escotista no ramo lobinho no Grupo Escoteiro Jorge Frassati, de Curitiba (PR). Depois, na Pastoral da Criança fez várias parcerias e convênios com os Escoteiros do Brasil.

Segue a íntegra do Prefácio do livro Roteiro Pastoral, do cardeal Dom Evaristo Arns, lembrando que nossa língua portuguesa passa por mudanças e que a leitura deve ser feita considerando o contexto de novembro de 1970, quando foi escrita.

Prefácio de Roteiro Pastoral

A orientação da sociedade é hoje, talvez como nunca na História, democrática. Mas já percebiam os antigos gregos que a democracia é extremamente exigente para com as lideranças. Não se escolhe um bom orador para comandar um navio. Cada coordenador de grupo se convence rapidamente de quanto é decisiva a sua ação e como é fatal dispersar-se a generosidade dos melhores grupos, sem uma orientação firme.

O princípio fundamental será integrar o jovem dentro de uma realidade total, canalizando suas fôrças tôdas para o bem da comunidade. Foi por isso que o Documento sôbre as Elites, de Medellín, estabeleceu como primeira recomendação pastoral: “Não separe esta pastoral – própria das elites – da pastoral tôda da Igreja”. Ser Chefe significa de certa forma encarnar tôda a Igreja. Ser-lhe o sinal visível. Interpretar para a comunidade a vida e as normas da vida do Cristo, e representar junto ao mesmo Cristo a comunidade que lhe é confiada.

Admira então que o Chefe, dentro do movimento religioso do Escotismo, deva ter aquela “fé pessoal, adulta, interiormente formada, operante, e constantemente confrontada com os desafios da vida atual?”

O grande Livro do Chefe será pois o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Insubstituível em sua vida, transformar-se-à lentamente em fonte de inspiração para o relacionamento e formação de seu grupo.

Por outro lado, o Chefe vive o drama de todos os componentes de seu grupo. As aspirações mais profundas e as limitações mais dolorosas serão assumidas por êle. Nenhuma atuação pode tornar-se a histórica, se ela quiser ser eficiente. Assim como o motorista é todo ouvido e todo atenção para os mínimos ruídos e instrumentos de alerta de seu carro, assim o Chefe estará com o ouvido colado à personalidade de cada um dos membros de seu grupo. Poderíamos até dizer: Não existe orientação pastoral desligada da realidade. Jesus reuniu os mais diversos tipos e as mais diversas profissões e soube conduzi-los todos a um “colégio”, onde não houvesse apenas soma de qualidades, mas ação de grupo e possibilidade ampla de expansão de cada apóstolo.

A formação se opera menos por palavras, ensinamentos ou princípios do que pela irradiação da personalidade. O evangelista verificou com muita precisão que Jesus chamou os Doze para “estarem com Êle”, e só depois os enviou. A fé se transmite desta forma: Quem crê, e vive em coerência com esta crença, está transformando o seu ambiente e transmitindo a mesma fé e a mesma vivência. Os Escoteiros têm prática disto: Ao armarem o seu foguinho de acampamento, percebem como um graveto passa o fogo a outro graveto, uma acha* incendeia a outra, e o calor gostoso se irradia por todo um mundo escuro e frio. Mas é preciso que haja um primeiro início de fogo. Eis a missão do Chefe, ser êsse início. A fé é o fogo que Cristo veio trazer à Terra. Como Êle aceitou o Pai, o Chefe aceita o Cristo. O grupo aceita o Chefe. E um aumenta o entusiasmo do outro.

Assim, torna-se evidente que o Chefe terá a grande preocupação de levar o seu grupo a viver da Fraternidade para a Fraternidade. Quem não possui o dom de unir e de fortalecer a união não merece o nome de Chefe. Quem não faz crescer as pessoas tôdas na firmeza de caráter e na doação de tôda sua riqueza pessoal pode ser um tirano eficiente, mas não será nunca um Chefe cristão.

Poderíamos ainda avançar. O Chefe é capaz de transformar as próprias limitações em virtudes, aproveitando o grupo para uma terapia eficiente e cristã. A fôrça de Deus se manifesta na fraqueza, e a fraqueza permite que o grupo consolide uma amizade, capaz de durar pela vida em fora. O importante, no entanto, será sempre o espírito que a tudo anima. O Escoteiro não poderá contentar-se com atos. Não conseguirá observar os 10 pontos de sua Lei, caso o interior do coração, a personalidade, não se transforme numa fonte para os atos, numa posição e numa fôrça para a observância da lei. Comunhão de vida, amizade profunda, exigência crescente, grupo coeso, vivência de ideais e tudo o que o Escotismo visa, há de ser alimentado por esta fôrça interior que o Chefe transmite e que êle próprio recebe de nôvo do Espírito de Jesus.

Temos hoje a mais profunda convicção de que ser Leigo significa ser Povo de Deus, Igreja. Daí a responsabilidade única de o Chefe ser o apóstolo que cria, alimenta e desenvolve esta comunidade humana, a quem Deus deu o mais importante de todos os títulos – título de seu Povo e sua Família.

a) DOM PAULO EVARISTO ARNS, O.F.M.

Secretário Nacional de Educação da CNBB

Membro do Conselho Nacional da U.E.B.

*pedaço de madeira

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