Escotismo mostra que inclusão de pessoas com deficiência é possível

No dia 21 de setembro é celebrado o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. A data foi oficializada em 2005, mas já é comemorada desde 1982. Por lei, a definição da deficiência humana é: “toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano”. Segundo a ONU, 10% da população possui alguma deficiência em todo o planeta.

No Escotismo, uma das pautas mais atuais e recorrentes é a inclusão de todos, sem qualquer discriminação e com a promoção da acessibilidade. Por isso, conversamos com o jovem Felipe Orfão Parlato, de 18 anos, do Grupo Escoteiro São Paulo 1/SP, que é escoteiro desde 2012 e tem paralisia cerebral (distúrbio congênito de movimentação, tônus muscular ou postura). Sua deficiência, considerada do tipo motora, é causada por uma lesão cerebral que em geral ocorre durante a gestação ou nos primeiros anos de vida.

Felipe foi diagnosticado logo quando nasceu prematuramente e desde então foi submetido a três cirurgias e muita fisioterapia. Ele conta que sua condição já progrediu muito. Das três cirurgias feitas, em duas já estava no Movimento Escoteiro. E diz: “Mesmo durante o período em que eu estava de cadeira de rodas ou nos momentos mais complicados, continuei participando das atividades”.

A realidade de muitas pessoas com deficiência é isolada e sem sair muito de casa lembra o pioneiro, mas, sabendo dos limites de cada um, o Escotismo é flexível e deve ser adaptável para inclusão de todos. Felipe ressalta a importância de que cada vez mais pessoas com deficiência ocupem espaços dentro do Movimento Escoteiro.

O jovem que acabou de ingressar no Ramo Pioneiro (entre 18 e 21 anos incompletos), explica que a maioria dos seus amigos de ramo já estão com ele há algum tempo, então é um contato mais fácil. Ele ainda se diz animado com o que está por vir, já que a proposta educativa para essa faixa etária dá mais autonomia ao jovem.

Existem ainda outros tipos de deficiência: visual, auditiva, mental, física e múltipla (que pode agregar duas ou mais deficiências), todas com diferentes possibilidades de manifestação. O escoteiro Maurício Leite Silva Maia, do Grupo Escoteiro Budista Blia 516/SP, por exemplo, tem malformação congênita, que resultou na ausência de sua mão direita. Ele ingressou no Movimento Escoteiro em 2018 junto com seu irmão mais novo e foi direto para o Ramo Escoteiro (entre 11 e 14 anos) com 12 anos. 

A mãe dos jovens, Gisele, conta: “O Maurício é muito bem resolvido e sempre mostramos que ele pode fazer tudo o que quiser com boa vontade”. Ela ainda afirma que ele conquistou o cordão verde e amarelo, um símbolo de progressão pessoal, e começou a se interessar muito pela cozinha, virando o cozinheiro da patrulha em diversos acampamentos. Hoje, ele é o monitor da sua patrulha e continua colecionando especialidades rumo à Lis de Ouro, distintivo especial que representa o grau máximo de desenvolvimento dos jovens em sua faixa etária.

Os Escoteiros do Brasil têm se preparado cada vez mais para se tornar uma organização mais inclusiva. Um exemplo são eventos recentes que, pela primeira vez, tiveram parte significativa da programação interpretada em Libras, como o Congresso Regional Escoteiro, o 8º Jamboree Nacional Escoteiro Online e a 2ª Caçada Nacional do Ramo Lobinho.

 

Como promover atividades inclusivas?

Atividades em que os jovens são vendados ou têm um membro do corpo imobilizado não são incomuns. Muitos escotistas promovem jogos como esses para oferecer uma vivência parecida com a de uma deficiência e despertar empatia nos jovens. No entanto, segundo a equipe regional de Inclusão, é necessário ir além.

“É importante trazer o significado da acessibilidade e inclusão, senão será apenas mais um jogo. A diversidade de cada um traz um ponto de vista diferente e não devemos achar que a deficiência torna essa pessoa incapaz”, diz Guilherme Cunha (Crosoeh), coordenador de Inclusão no estado de São Paulo.

Quando se tem um jovem com deficiência na seção, seja qual for a idade, a equipe de Inclusão observa que a aplicação do Método Escoteiro precisa ocorrer normalmente, com o escotista incentivando que cada um consiga superar seus próprios desafios. Crosoeh explica: “Além disso, se o escotista não sabe como adaptar um jogo para o jovem com deficiência se sentir incluído, ele deve perguntar ao jovem. A pessoa com deficiência deve ser ouvida”. E completa dizendo que jogos adaptados, para serem realmente inclusivos, devem ter a mesma regra para todos, não uma regra específica para quem tem a deficiência. 

 

Como promover acessibilidade?

Nem todas as sedes de Unidades Escoteiras Locais (UELs) são acessíveis ainda. Por isso, a equipe regional de Inclusão indica que se algum jovem com deficiência física, por exemplo, procurar uma unidade que não tem acessibilidade, sua família deve ser informada das condições da sede.

“Sabemos que o escotismo acontece no campo e que é difícil entender como uma pessoa com deficiência física ou motora conseguirá se locomover, mas é possível”, explica Crosoeh.

Allyne Pires, integrante da equipe de Inclusão, dá outras dicas: “Adaptar a sede é algo que requer recursos financeiros que nem sempre o grupo ou seção autônoma têm acesso, mas uma acessibilidade mais fácil e que poucos associam é a comunicação”. De acordo com ela, nas redes sociais as UELs podem descrever os elementos das fotos (com a hashtag #paratodosverem) para atingir cegos, pessoas com baixa visão e até autistas e pessoas com deficiência intelectual. Além disso, inserir legenda nos vídeos postados é uma forma de atingir pessoas com deficiência auditiva.

Para as atividades online, também há possibilidades: “Se algum jovem ou escotista tiver deficiência auditiva, a melhor ferramenta é o Skype, pois tem a legenda automática”, recomenda Allyne.

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