Família conta a diferença que o Escotismo faz na vida de uma criança autista

A família Carvalho é constituída pelos pais, Aline Nicoletti Carvalho e Fernando Augusto Carvalho, e os filhos, Lucas Nicoletti, o mais velho, e Fernando Augusto Carvalho Junior, o mais novo, que é autista. Todos eles fazem parte do Movimento Escoteiro no Grupo Escoteiro Ubirajara 7/SP, de Mogi das Cruzes. 

Família Carvalho completa.

O nome técnico oficial da doença é Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), caracterizado por déficit na comunicação social (socialização e comunicação verbal e não verbal) e comportamento (interesse restrito e movimentos repetitivos). Não há só um, mas muitos subtipos do transtorno, o que explica o uso do termo “espectro”: há pessoas com nível de comprometimento muito alto, com outras doenças e condições associadas (por ex: epilepsia), e pessoas que levam uma vida comum e com independência, às vezes sem chegar a descobrir que são autistas por não serem diagnosticadas. 

A família Carvalho entrou no Escotismo por meio do filho mais velho, que sofre de ansiedade, e sua terapeuta (que já foi escoteira) sugeriu o Movimento Escoteiro. Assim, a família ingressou no primeiro grupo. Fernandinho, o mais novo, ainda não tinha idade o suficiente para entrar na alcateia, por isso somente acompanhava os pais e o irmão, aguardando ansiosamente até os 6,5 anos.

Na época, ele ainda não tinha um diagnóstico. Quando completou idade suficiente para entrar na alcateia, a adaptação foi um pouco mais fácil, porque o irmão ainda estava no mesmo ramo. Então Lucas fez 12 anos e passou para o Ramo Escoteiro, o que foi muito complicado para ele,  por isso decidiu mudar de grupo. O mais velho foi primeiro e, após o período de adequação, toda a família se mudou para o Grupo Escoteiro Ubirajara 7/SP. Por conta de naquele momento não terem ainda o diagnóstico, a família não pensou em quão difícil a mudança poderia ser para o  mais novo, para se adaptar com o novo lugar e as novas pessoas.

Após descobrirem que Fernandinho tinha TEA, os escotistas da nova alcateia ajudaram muito. Aline conta: “Os lobinhos sabiam da dificuldade dele, se ele não queria fazer alguma coisa, todos respeitavam, mas não o excluíam”. Eles tinham um pouco mais de informações sobre como ajudar o Fernandinho, por exemplo: sabendo que ele tinha problemas com a alfabetização, porém tinha uma memória muito visual.

Mural do quarto do Fernandinho com lembranças de atividades.

Aline conta que o Escotismo ajudou muito no desenvolvimento de seu filho. Ele tinha muita determinação em conquistar seu Cruzeiro do Sul, distintivo máximo do Ramo Lobinho, então se esforçou para ler, entender o livro de progressão e as especialidades que ele tinha que fazer, o que auxiliou em sua alfabetização. Ele chegou a fazer um curso de primeiros socorros na Cruz Vermelha para tirar a especialidade de Primeiros Socorros. E, sempre procurando a melhor forma de aprender, para a especialidade da História do Escotismo ele precisava de mais estímulos visuais, então assistiu muitos vídeos no YouTube. 

Fernandinho fazendo o curso de primeiros socorros.

Fernandinho teve muitas primeiras vezes proporcionadas pelo Escotismo, como a primeira vez em que acampou sozinho, e também desenvolveu a questão da alimentação, com seu primeiro pão de queijo, primeiro macarrão. Em um JangalCamp, sua a mãe lembra: “Ele sempre gostou muito da cor azul, a psicóloga aconselhou que seria melhor que ele ficasse na matilha dessa cor para evitar problemas. Então liguei para a coordenadora do evento e rapidamente isso foi resolvido”.

No Jangalcamp na matilha azul.

Fernandinho, depois de todas essas conquistas, conseguiu alcançar seu objetivo de ser um lobinho Cruzeiro do Sul. Aline relata que a cerimônia foi muito especial, não só para ele como para todos os presentes. Aconteceu em um Rally (evento distrital) com todos os seus amigos e a família reunida, uma verdadeira realização. 

Depois desse momento marcante, era hora do Fernando passar para o Ramo Escoteiro. Os escotistas e pais fizeram uma reunião para discutir como seria a mudança e trocar dicas. Mas segundo Aline, o medo parecia ser mais deles do que do próprio jovem, que estava animado com a mudança e se adaptou melhor do que o esperado. 

Fernandinho com sua Tropa Escoteira.

Como escoteiro, Fernando e seu irmão, Lucas, venderam trufas e juntaram dinheiro para irem ao Jamcam (acampamento interamericano que ocorreu em Foz do Iguaçu/PR, em janeiro deste ano). Foi acordado que o irmão mais velho iria cozinhar e o mais novo faria a venda, proporcionando o desenvolvimento de uma habilidade nova para ele: conversar com pessoas e vender algo. Hoje, com 12 anos, ele foi eleito submonitor da sua patrulha e continua evoluindo muito com ajuda de seus companheiros de ramo e escotistas. 

No Jamcam 2020.

 

Inclusão no Movimento Escoteiro 

Embora o Escotismo seja um ambiente fértil de desenvolvimento para todos os jovens, casos de inclusão não dispensam um acompanhamento profissional adequado. O Movimento Escoteiro é sempre um complemento da ação da família, da escola e de outros agentes envolvidos na fomação de uma criança, adolescente ou jovem.

Para ingressar no Movimento Escoteiro ou entender mais sobre iniciativas de inclusão, é necessário procurar o Diretor de Métodos Educativos da Unidade Escoteira Local, o Comissário Distrital ou a própria Diretoria Regional. A equipe regional de Inclusão está disponível para auxiliar todas as instâncias pelo email inclusao@escoteirossp.org.br.

Informações sobre TEA utilizadas na matéria: https://www.revistaautismo.com.br/o-que-e-autismo/

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